A erosão silenciosa do jornalismo

A Rosália dá dois concertos na MEO Arena, ambos esgotados. Não permite a presença de fotojornalistas em nenhum deles, tal como no resto da tour. Na prática, as únicas imagens que acabam por circular são as da sua própria produção (polidas e cuidadas, como é suposto) ou as das redes sociais — porque hoje toda a gente fotografa em todo o lado. Não surpreende, por isso, que a imagem que ilustra o artigo no Expresso seja um disparo de telemóvel publicado no Instagram.
Deixando de lado a discussão sobre o direito da artista em restringir o acesso a fotojornalistas (mas não a jornalistas), tudo isto — incluindo a forma como a imprensa lida com este e outros casos — revela duas coisas.
Primeiro, a evidente secundarização da fotografia como mera ilustração da notícia. Lembra o caso, há uns anos, de um jornal que dispensou os seus fotógrafos e passou a pedir aos jornalistas que fotografassem com iPhones, invocando até a qualidade final das imagens.
Segundo, a ainda maior secundarização da própria imprensa, cada vez mais reduzida a câmara de eco das redes sociais e das comunicações oficiais. Multiplicam-se os exemplos de notícias ilustradas com conteúdos de redes sociais — ou, pior, notícias que existem apenas porque “alguém disse algo” online: quem reagiu ao post de quem, quem comentou o quê. A isto soma-se a crescente dependência de conteúdos produzidos pelas próprias entidades (press releases, materiais promocionais, etc.).
Perante este cenário, impõe-se a pergunta: não estará o papel editorial da imprensa a tornar-se progressivamente irrelevante?
É que é assim que uma democracia vai morrendo.